Prevenção de pestes e pragas pela melhor nutrição vegetal - Parte 1

Texto extraído da página “Ana Maria Primavesi” no Facebook

Atualmente presume-se que sem máquinas pesadas e agroquímicos não é possível garantir alimentos para uma população mundial em rápido crescimento. A “Revolução Verde”, lançada sob o lema “Food for Peace” veio para os países do hemisfério sul e o Brasil adotou essa tecnologia “convencional”.

Agroquímicos, máquinas e vastas áreas plantadas e uma boa parte da população vive em miséria absoluta, faminta. A produtividade dos solos tropicais diminui, a erosão aumentou muito, causando inundações de proporções até então desconhecidas. Fontes e rios são poluídos e em parte desaparecem e a salinização e desertificação avançam, fora o desflorestamento indiscriminado que influi sobre o clima. Na África, onde avança o deserto do Saara, somente por métodos ecológicos se espera poder barrá-lo.

As variedades das culturas não são mais adaptadas aos solos e clima como antigamente, mas criados para suportar elevadas quantidades de adubos químicos e herbicidas de alta toxidez, inclusive variedades transgênicas como a soja resistente ao Round Up das quais ninguém ainda sabe o impacto sobre o meio ambiente e a saúde dos consumidores.

A tecnologia do hemisfério norte, de clima temperado, é inadequada para os solos tropicais. Em condições naturais, os solos tropicais produzem três vezes mais biomassa do que solos de clima temperado. Mas com a tecnologia convencional, as colheitas são decepcionantemente baixas.

Na agricultura brasileira existem duas tendências:
1- diminuir a aração e passar para o plantio direto;
2- diminuir gradativamente os defensivos químicos para poder exportar por preços mais compensadores.

Desde que a informática trabalha com sistemas, embora artificiais, a visão holística-sistêmica é cada vez mais comum, também na agricultura e na ecologia. Não se procura mais remover os sintomas mas corrigir causas. Não se procura mais matar pragas mas preveni-las. Portanto, procuram-se as causas. Pergunta-se: por que as pragas aumentam a cada ano? Faz 15 anos se conheciam 193 pragas nas lavouras brasileiras (Paschoal, 1982), atualmente ultrapassam 650.

De onde elas aparecem?

Na visão temática-analítica, ainda em uso, o solo é um amontoado de fatores físicos, químicos e biológicos, isolados uns dos outros e imutáveis, portanto podem ser modificados para melhorá-los. Na realidade, o solo é um ecossistema muito complexo e delicado em constante modificação. Sistemas sempre são dinâmicos, compostos de ciclos intimamente interligados. Ciclos naturais percorrem numerosos estágios até chegar ao final e ao mesmo início, começando novamente. Da estabilidade dos ciclos depende a sustentabilidade da atividade rural.

O solo tropical é considerado pobre e lixiviado, precisando ser fertilizado para dar rendimentos lucrativos. Na realidade, o solo é um ecossistema e adaptado exatamente ao clima tropical e às necessidades fisiológicas das plantas. Portanto ele tem de ser pobre por unidade (em dm3) mas com um perfil profundo e bem agregado para permitir a exploração de um grande volume de solo pela raiz vegetal. Sabe-se que com os nutrientes distribuídos a um volume 4 vezes maior, a planta produz o dobro. Importante para o solo sadio é uma vida, ou biocenose ativa.

As plantas recebem água e nutrientes do solo, fornecendo em troca matéria orgânica morta e excreções radiculares que alimentam a vida do solo. esta, por sua vez, na decomposição, produz substâncias agregantes como ácidos poliurônicos, que permitem a formação de poros no solo, por onde entra ar e água. Mas estes ácidos poliurônicos também são o alimento principal de fixadores de nitrogênio livres, enriquecendo o solo com nitrogênio. Como a matéria orgânica é o alimento da maior parte da vida do solo, sua diversificação é importante. Em monoculturas se beneficiam somente algumas poucas espécies. Portanto, a rotação de culturas com 4 ou 5 espécies é importante para manter a vida diversificada e prevenir pragas e doenças. A vida do solo é benéfico ao solo e culturas.

Um solo sadio é:
1- bem agregado com grumos estáveis ao impacto da chuva, para garantir a porosidade superficial onde entra a água e o ar;
2- com uma camada porosa na superfície que não pode ser revolvida pela aração mas mantida na superfície, como na lavração mínima e PD (plantio direto)
3- a matéria orgânica que sobra da colheita como restolhos de palha tem de voltar ao solo e não podem ser queimadas;
4- durante o espaço de tempo em que os agregados são instáveis e a cultura ainda está no campo, o solo tem de ser protegido por uma camada de palha, como no PD ou por um plantio adensado, evitando igualmente superaquecimento (acima de 32 graus C)
5- para conservar a umidade e o gás carbônico que sai do solo, necessita-se de proteção contra o vento. Na “sombra do vento”, ou seja, onde o vento não varre livremente, as colheitas muitas vezes dobram e em casos extremos poder ser até cinco vezes maiores do que sem proteção.

(continuaremos na parte 2)

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Bem interessante este aspecto, gostaria de entender melhor como explorá-lo.

Acho que isto não é comumente avaliado ao pensar no design de um campo agroflorestal. Por exemplo: cercando a área de plantio com um “quebra vento” feito com uma coluna de árvores plantadas de maneira adensada?